8 maneiras de fazer sondagem de escrita: qual delas é ideal para você?

Aprenda como fazer sondagem de escrita, passo a passo, a partir de oito propostas. Nesse post, você vai encontrar duas perspectivas diferentes para você escolher qual faz mais sentido na sua realidade: a perspectiva da Psicogênese da Escrita e a perspectiva atual de acordo com as evidências da Ciência da Leitura.

Olá! Que bom ter você aqui!

É inegável a importância de realizar diagnósticos de aprendizagem, principalmente quando se fala em intervenção pedagógica na alfabetização. A sondagem de escrita é uma ferramenta muito útil para avaliar o desenvolvimento das habilidades de escrita das crianças e identificar a necessidade de intervenções para ajudá-las na apropriação do sistema de escrita alfabético.

Neste artigo, serão apresentadas duas perspectivas diferentes: 

  • sondagem de escrita com base na Psicogênese da Escrita;
  • sondagem de escrita na perspectiva fonológica, com base em evidências científicas recentes, especialmente a teoria de Linnea Ehri.

Para que você possa escolher qual sondagem é mais adequada ao propósito que tenha no momento, serão apresentadas oito propostas, sendo que as três primeiras propostas são de ditado metalinguístico (Vale e Sousa, 2022; Sousa, 2014): 

  1. ditado – palavra mistério;
  2. ditado – frase da semana; 
  3. ditado de texto/ditado 0 erros;
  4. ditado para avaliar o desenvolvimento das habilidades preditoras;
  5. ditado tradicional de acordo com a Psicogênese;
  6. autoditado;
  7. sondagem a partir da reescrita de conto; 
  8. sondagem a partir de um contexto significativo.

Importância da sondagem de escrita

Primeiramente, a aprendizagem da leitura e da escrita é a base para os demais aprendizados. Além de ser um direito de todos e todas, saber ler e escrever com autonomia além da escola, ou seja, nas práticas sociais.

Infelizmente, o que vimos na realidade é que muitos estudantes concluem o Ensino Médio sem estarem alfabetizados. Geralmente, tiveram dificuldades lá no início da educação formal que não foram superadas e afetaram todo o percurso escolar.

Quem nunca se assustou, ao propor um ditado, alguns alunos escreverem letras que não têm nada a ver com a palavra ditada? A princípio, seria um desespero, principalmente em turmas que já passaram do ciclo da alfabetização.

Mas, quando temos conhecimentos sobre como a criança aprende, nosso olhar é diferenciado. O erro da criança é o ponto de partida para a professora ou professor compreender o que aquele estudante precisa para avançar na aprendizagem da leitura e da escrita. 

Assim, não cometemos o equívoco de apagar e pedir para o estudante copiar a forma correta repetidas vezes. Ou pior ainda, colocar um grande “X” de caneta. Pelo contrário, vamos fazer mediações para estimular a criança a refletir sobre o princípio alfabético.

Como exigir uma escrita convencional de um aluno que ainda não compreendeu o funcionamento do sistema de escrita alfabética? Ele não irá conseguir e se sentirá frustrado.

Nesse sentido, a sondagem é uma maneira de diagnosticar como os estudantes estão pensando a escrita e quais foram os avanços, para orientar o trabalho dos professores. É também um instrumento para o planejamento de intervenções pedagógicas eficazes e definição de agrupamentos produtivos.

Desse modo, é muito importante ter acesso à forma como as crianças escrevem e pensam a escrita, de maneira a contribuir positivamente para a aprendizagem do princípio alfabético.

Com efeito, ao longo do processo de alfabetização verifica-se que as crianças recorrem a estratégias diversificadas, evidenciando diferentes tentativas de compreensão do princípio alfabético” (Albuquerque, 2022, p. 81)

A sondagem não precisa ser aplicada apenas com crianças menores. Muitas turmas, embora avançadas, possuem alunos que não foram alfabetizados e é importante ter esse diagnóstico.

Por que conhecer as fases da escrita?

Como expliquei no início, neste post vamos ter duas perspectivas diferentes sobre o aprendizado da leitura e da escrita que influenciam na avaliação da sondagem de escrita: 

  • a perspectiva da Psicogênese da Escrita;
  • a perspectiva atual, de acordo com as evidências científicas. 

É importante você conhecer essas duas visões até mesmo para comparar o que está mudando no entendimento sobre como a criança aprende a ler e escrever, a partir dos estudos recentes.

Durante muito tempo, a sondagem de escrita realizada nas escolas teve como fundamentação teórica a Psicogênese da Língua Escrita, desenvolvida por Emília Ferreiro e Ana Teberosky. E até os dias de hoje, essa teoria exerce influência em nossas avaliações, mesmo porque estudamos esses conceitos na faculdade, enfim, é uma proposta mais conhecida.

Quando aplicamos a sondagem de escrita de acordo com a Psicogênese, avaliamos em qual hipótese de escrita o estudante está. Se a escrita é pré-silábica, silábica sem valor sonoro, silábica com valor sonoro, silábica-alfabética ou alfabética.

A Psicogênese da escrita trouxe muitas contribuições que, no meu ponto de vista, não podem ser ignoradas.

Contudo, apesar da importância dos estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, sabemos que, com o passar do tempo, outras pesquisas vão sendo realizadas e surgem novos resultados que também precisam ser considerados.

Na perspectiva atual, são considerados os estudos de Linnea Ehri. Ela é uma psicóloga educacional americana especialista no desenvolvimento da leitura infantil e, na atualidade, sua teoria é a mais influente no mundo.

De acordo com a proposta de Ehri, há quatro fases para descrever o desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita: pré-alfabética, alfabética parcial, alfabética completa e alfabética consolidada.

Quais são as diferenças entre essas abordagens?

Em resumo, na sondagem de escrita na perspectiva psicogenética, procuramos identificar as hipóteses de escrita dos alunos. Já na sondagem de escrita na perspectiva fonológica, avaliamos para identificar o domínio dos alunos a respeito do conhecimento das letras e da relação entre letra e som.

Vamos compreender melhor cada uma das perspectivas:

As pesquisadoras Emília Ferreiro e Ana Teberosky produziram, na década de 80, uma pesquisa relevante sobre a psicogênese da escrita. Por trás dos “rabiscos”, conhecidos como garatujas ou ainda “erros” cometidos pela criança, estão pistas para o professor conhecer as hipóteses que o aluno constrói antes de aprender a escrever convencionalmente.

Considerando o “ponto de vista construtivo, a escrita infantil segue uma linha de evolução surpreendentemente regular, através de diversos meios culturais, de diversas situações educativas e diversas línguas” (Ferreiro, 2011, p. 21-22).

Na abordagem de Emília Ferreiro,

Se pensarmos que a criança aprende só quando é submetida a um ensino sistemático, e que a sua ignorância está garantida até que receba qualquer tipo de ensino, nada poderemos enxergar. Mas se pensarmos que as crianças são seres que ignoram que devem pedir permissão para começar a aprender, talvez comecemos a aceitar que podem saber embora não tenha sido a elas a autorização institucional para tanto” (Ferreiro, 2011, p.20).

Esses estudos contribuíram muito para a área da alfabetização. Porém, atualmente, uma área possibilita novas perspectivas sobre como a criança aprende a ler e a escrever, é a chamada Ciência Cognitiva da Leitura.

Afinal, o que é Ciência da Leitura?

Sargiani (2022, p. 3) explica que essa área chamada de Ciência Cognitiva da Leitura ou simplesmente Ciência da Leitura, reúne pesquisas e conhecimentos de diversas áreas: neurociência cognitiva, psicologia, linguística, pedagogia e fonoaudiologia.

Por que Ciência da Leitura se estamos falando também de escrita? Inicialmente, a prevalência de estudos nessa área era sobre o ensino e aprendizagem da leitura. Mas, sabemos que a leitura e a escrita andam juntas. Por isso, atualmente, a área da Ciência da Leitura busca um maior equilíbrio com os estudos sobre a habilidade de escrita. Sobre essas mudanças, o autor supracitado considera que seria mais correto dizer “Ciência cognitiva da literacia”.

Em vez de entender que as crianças passam por estágios antes de aprender a escrever, como considerava Emília Ferreiro, as propostas atuais consideram que a evolução da escrita acontece a partir de mudanças graduais na habilidade de a criança detectar e representar sons por grafemas (Cardoso-Martins, 2013).

Nesse sentido, as fases mudam de acordo com o conhecimento e uso do sistema de escrita pelas crianças. Dependem do conhecimento das crianças sobre o sistema de escrita e do tipo de conexão predominante para fixar na memória a grafia das palavras às suas pronúncias.

Essas fases não são consideradas períodos distintos de desenvolvimento, já que elas sobrepõem-se conforme o conhecimento da criança sobre o funcionamento do sistema de escrita, especialmente as relações entre letras e sons. O tipo de conexão predominante que o aprendiz utiliza para reter palavras na memória indica a fase em que ele está (Ehri; O’Leary, 2022).

O erro das crianças, seguindo a perspectiva psicogenética, indica a hipótese. Seguindo a perspectiva fonológica, indica habilidades fonológicas que ainda não foram desenvolvidas.

Muitas escolas ainda adotam a perspectiva psicogenética. Nesse caso, é importante complementar a sondagem, avaliando também o conhecimento sobre as letras e a consciência fonológica.

Quando não há essa “imposição”, você pode optar por realizar a sondagem com base na perspectiva fonológica, que é mais completa e está de acordo com as evidências científicas atuais. É uma abordagem nova para muitos de nós e que, por isso, precisa ser estudada.

Agora, vamos às sugestões para a realização da sondagem de escrita.

Sondagem de escrita por meio de ditado

O ditado é uma prática simples, muito realizada desde nossa época na escola. O que torna essa atividade poderosa é a nossa maneira de conduzir e mediar esse processo.

Se a gente ditar palavras, textos ou frases e depois apenas corrigir com “C” e “X”, todo esse potencial do ditado como instrumento avaliativo e favorecedor da aprendizagem é perdido.

Tanto na perspectiva psicogenética quanto na perspectiva fonológica, é possível realizar a sondagem por meio do ditado. Dentro dessa proposta, vou trazer diferentes possibilidades de realização.

Ditado metalinguístico

As sugestões apresentadas a seguir são sugeridas por Ana Paula Vale e Otília Sousa no livro “Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula” (2022).

Elas explicam que adotam o ditado como estratégia desde o primeiro ano de escolaridade. Esse ditado é proposto como diagnóstico inicial e posteriormente como avaliação final, sendo que a intervenção pedagógica também é fundamentada por ditados metalinguísticos.

Nas palavras das pesquisadoras:

“Se o ditado for usado apenas como exercício de avaliação, perde-se o seu potencial de estratégia de ensino. Mas se o ditado visa à reflexão, à partilha de estratégias cognitivas de resolução de problemas de escrita de palavras e é seguido de exercícios de treino, então pode ser uma mais-valia no ensino da ortografia (Vale; Sousa, 2022, p. 197).

As autoras sugerem que, em uma abordagem de resolução de problemas, a proposta do ditado é escrever palavras, frases e textos a pares ou individualmente e depois encaminhar uma discussão e partilha de estratégias cognitivas.

Já quando o ditado é utilizado como instrumento de intervenção, elas partem das dificuldades diagnosticadas na escrita dos alunos, ou seja, as palavras e frases ditadas contemplam os problemas já observados.

Com base no artigo “O ditado como estratégia de aprendizagem” de Otília Costa e Sousa (2014), são apresentadas três modalidades de ditado metalinguístico:

Primeira proposta: Palavra mistério 

Exemplo de como fazer sondagem de escrita a partir da proposta da "palavra mistério". Há um cartaz com o desenho de uma vela colado na lousa. Ao lado, estão escritas três opções de grafia: velo, vela e sela.

Essa atividade é indicada para o início do 1º ano.

Passo a passo:

  1. Você dita uma palavra de cada vez, e as crianças escrevem em duplas, discutindo a forma correta de escrever. 
  2. No quadro, você escreve opções de grafia da palavra (por exemplo, três maneiras diferentes), sendo que uma opção é correta.
  3. Em seguida, conduz reflexões sobre as escolhas das crianças: “Por que vocês acreditam que essa é a maneira correta de escrever essa palavra?”, “O que vocês pensaram quando escolheram essa palavra e não outra?”, “Alguém tem uma opinião diferente?”.
  4. À medida que os alunos vão expondo o ponto de vista deles e você faz as mediações para estimulá-los a refletir sobre a escrita, você vai apagando as grafias incorretas do quadro e, no final, os alunos copiam a palavra correta no caderno.

No início do 1º ano, devem ser usadas palavras simples, com duas sílabas, padrão CV e sons com apenas uma possibilidade de transcrição e de preferência com letras que as crianças já conhecem, como por exemplo, as que estão no nome de alunos da turma.

Segunda proposta: Frase da semana

Exemplo de como fazer sondagem de escrita a partir da proposta da "frase da semana". A frase está escrita na lousa/quadro de giz. Acima de cada palavra, há opções de grafia que os demais alunos consideram corretas. As palavras escritas incorretamente estão marcadas com "x", enquanto as palavras corretas estão circuladas. Abaixo, está escrito a frase final, corretamente.

Essa atividade é indicada para o final do 1º ano e início do 2º ano.

Passo a passo:

  1. Aqui você vai ditar uma frase e cada aluno escreve individualmente no caderno ou em uma folha. Além do conhecimento ortográfico e fonológico, os alunos podem recorrer aos materiais da sala de aula, como cartazes, listas de palavras, nomes dos estudantes, entre outros.
  2. Em seguida, você organiza os estudantes em duplas para poderem discutir com um colega, confrontar suas grafias e chegar a um consenso sobre as palavras que escreveram de forma diferente.  É importante realizar duplas com alunos de níveis próximos, com base em observações que você já realizou em outros momentos ou relatórios de anos anteriores.
  3. Posteriormente, uma dupla escreve a frase no quadro e as demais duplas da turma escrevem, também no quadro, apenas as palavras que grafaram de forma diferente.
  4. Nesse momento, você encaminha uma discussão, abrindo espaço para as crianças explicarem como escreveram, faz as mediações e vai riscando as palavras escritas incorretamente. No final, valida as escritas corretas. 

A partir dessa atividade de ditado, você tem uma “base” para  planejar exercícios com o intuito de treinar as dificuldades observadas. Também é importante avaliar a segmentação das palavras na frase.

As autoras recomendam preparar listas de palavras para ajudar os alunos a observar as regularidades, levantar hipóteses e assim, chegar à regra de ortografia.

Terceira proposta: Ditado de texto ou Ditado 0 erros

Recomendado a partir do 3º ano.

Passo a passo:

  1. Para começar, você  lê um pequeno texto e verifica se os alunos compreenderam.
  2. Depois, dita uma frase ou sintagma com no máximo, quatro palavras. Os alunos escrevem individualmente.
  3. Após terminar de escrever a frase ou sintagma ditado, os alunos compartilham com a turma e com a professora/professoras dúvidas que tiveram. 
  4. A partir das dúvidas, seu papel é conduzir uma discussão e ajudar a turma a refletir sobre as estratégias.
  5. Quando o aluno pergunta como se escreve uma determinada palavra, você pode responder com questionamentos e solicitar a intervenção dos demais alunos, fazendo as mediações necessárias. 
  6. Em seguida, você continua o ditado, dita mais um segmento, encaminha as discussões e assim por diante.

Dessa forma, o objetivo não é treinar a grafia correta das palavras, mas ensinar os alunos a refletirem, tomarem consciência do processo de escrita. Por isso, é também chamado pela autora de “ditado de 0 erros”.

Essas possibilidades sugeridas por Vale e Sousa (2022) são muito interessantes, pois os estudantes podem participar ativamente da sondagem e, ao mesmo tempo, se beneficiar das intervenções para avançar de fase. Podem expor suas dúvidas, descobertas e explicar porque escreveram de determinado modo. 

Além disso, é uma oportunidade rica para os professores realizarem suas observações sobre o processo de ensino e aprendizagem.

Quarta proposta: Ditado para avaliar as habilidades preditoras 

Outra possibilidade, se você preferir realizar o ditado individualmente, é escolher um grupo de palavras com os padrões que você quer observar. Aqui não tem uma quantidade fixa.

O objetivo é ditar palavras variadas, preferencialmente, que os alunos não memorizaram, e avaliar o desenvolvimento das habilidades preditoras da alfabetização: conhecimento alfabético, consciência fonológica (que inclui a consciência fonêmica) e leitura.

Uma proposta interessante é escolher palavras de um livro que você leu para a turma.

Imagem para ilustrar a aplicação da sondagem de escrita.

Quinta proposta: Ditado de acordo com a Psicogênese

O ditado utilizado tradicionalmente seguindo a perspectiva da Psicogênese é realizado ditando quatro palavras e uma frase.

Passo a passo:

1 – Preparação:

Tudo o que você vai precisar é de uma folha A4 e lápis para escrever. O motivo de utilizar uma folha sem pauta é avaliar também a utilização do espaço, alinhamento e direção da escrita. 

E a borracha, não é necessária? Quando o aluno quiser mudar algo na escrita, é preferível que ele escreva novamente, na frente do que escreveu antes, pois assim é possível observar os conflitos cognitivos que ele está vivenciando.

Dessa forma, se a criança apagar, essas correções só poderão ser registradas nas anotações da pessoa que está avaliando. 

Aliás, esse é outro ponto importante. Ao aplicar a sondagem, tenha sempre um caderno ou outro material para ir anotando qualquer observação que irá complementar o registro, como aspectos emocionais, perguntas que o aluno faz, justificativas, entre outras.

2 – Escolhendo a lista de palavras:

Escolha uma lista de palavras para fazer o ditado. Essas palavras devem pertencer ao mesmo campo semântico, por exemplo, animais, frutas, comidas, materiais escolares, etc. Precisam fazer parte do cotidiano dos alunos, mas não devem ser palavras cuja escrita tenha sido memorizada por eles. Outro detalhe é escolher uma palavra polissílaba, uma trissílaba, uma dissílaba e uma monossílaba, sendo que elas serão ditadas nessa ordem.

Além disso, as palavras precisam variar a quantidade de letras e sílabas. 

Lista de palavras para sondagem de escrita

3 – Após selecionar as palavras, planeje uma frase que tenha uma dessas palavras. O objetivo é observar se a escrita do aluno permaneceu estável, isto é, se ele escreveu a palavra da mesma forma, na lista e na frase.

4 – Aplicação da sondagem:

Principalmente em turmas de alfabetização inicial, o melhor é aplicar a sondagem individualmente para observar, fazer perguntas e ter uma avaliação mais próxima. No entanto, é possível realizá-la em grupos, dentro de cada possibilidade. E pedir auxílio a outros profissionais da escola, quando necessário.

Prepare um ambiente acolhedor, que se distancia do que comumente esperamos de uma avaliação tradicional. Explique ao aluno que você precisa que ele escreva algumas palavras, mas que não vai observar se está certo ou errado, ele somente precisa escrever como “pensa” a escrita.

Para criar uma situação mais próxima da realidade, é legal criar um contexto para o ditado. Por exemplo, se a lista for de materiais escolares: “Ana está precisando de materiais novos para a escola. Vamos escrever uma lista de materiais que ela precisa comprar”.

Combine com o estudante que ele vai escrever uma lista e, por isso, cada palavra deve ser escrita uma abaixo da outra. Também peça que escreva com letras bastão maiúsculas (de imprensa). Como os caracteres são isolados e o traçado é mais fácil, a hipótese de escrita pode ser melhor representada do que quando se utiliza letra cursiva.

Inicialmente, peça para o aluno escrever o nome na parte superior da folha, da maneira como ele consegue.

5 – Realizando o ditado:

Ao ditar, evitar a escansão. Em outras palavras, não pronunciar a palavra como se estivesse separando as sílabas, apenas dizer normalmente. 

Observe as reações da criança e anote o que ela falar espontaneamente. Alguns alunos fazem perguntas, tais como “é com essa letra?”, “está certo?”. Contudo, nesse modelo de ditado tradicional, não fazemos intervenções ou correções.

Para os alunos que se mostrarem resistentes e não quiserem escrever na folha, a dica é preparar letras móveis. Nesse caso, quem está avaliando faz o registro em forma de escrita.

Quando o estudante avaliado terminar de escrever a primeira palavra do ditado, peça que ele leia o que escreveu. Para confirmar a hipótese, é importante verificar a relação que ele estabelece entre a escrita e a leitura. Você pode registrar nas anotações como ele faz a leitura, se associa com a escrita, se aponta com o dedo cada uma das letras, entre outras que forem relevantes.

A marcação de leitura pode ser feita pelo professor ou outro avaliador ou mesmo pelo próprio estudante (ao invés de indicar com o dedo).

E assim, repita esse processo para todas as palavras e, por último, para a frase.

Registro da leitura na sondagem de escrita
Exemplo de marcação da leitura. As marcações em verde podem ser feitas, tanto pelo aluno, quanto pelo professor. Já as marcações em vermelho são feitas somente pelo professor.

Sexta proposta: Autoditado

Diferente do ditado tradicional, onde o docente dita as palavras em voz alta, no autoditado a criança recebe apenas uma imagem (ou o objeto real) e precisa resgatar em seu repertório interno tanto a nomenclatura quanto a forma de escrita.

Ou seja, o estudante escreve, por conta própria, o nome correspondente. Essa proposta exige um esforço cognitivo maior, pois é preciso segmentar a palavra em sons mentalmente.

Dentro dessa proposta, há muitas possibilidades de realização:

  • Entregar uma folha impressa com alguns desenhos e, na frente, um espaço para a escrita;
  • Realizar jogos em que os alunos precisam lançar dois dados, identificar a coordenada e escrever o nome do desenho sorteado;
  • Preparar uma caixa de objetos, em que os estudantes retiram objetos da caixa para escrever os nomes na lista;
  • Espalhar “estações” pela sala. Em cada estação, há uma imagem ou um objeto. A criança circula com uma prancheta e, ao chegar a cada ponto, deve anotar o que encontrou;
  • Usar ferramentas como o Word Wall ou slides onde a imagem aparece e a criança digita ou escreve a palavra;
  • Realizar atividades lúdicas em que o objetivo é agrupar imagens de um mesmo campo semântico.

Enfim, há várias outras possibilidades, inclusive de trazer a ludicidade para fazer uma sondagem divertida.

Realizar somente o ditado é suficiente para sondar o conhecimento dos alunos sobre a escrita?

Quando conhecemos as evidências científicas que explicam como aprendemos a ler e a escrever, percebemos que apenas o ditado não é suficiente para avaliar esse processo tão complexo.

É preciso avaliar também:

  • o conhecimento das letras: avalie se os estudantes sabem o nome das letras, a forma gráfica e o som correspondente.
  • a consciência fonológica: avalie se os estudantes conseguem manipular os sons das palavras orais. Dentro da consciência fonológica, está a consciência fonêmica, que não pode ser esquecida na avaliação, pois abrange habilidades fundamentais para aquisição de habilidades de decodificação e ortografia.

Além disso, é importante avaliar a leitura, pois o ensino da leitura e o ensino da escrita devem andar juntos.

Ehri (2013) investigou, em muitos estudos, se o treinamento na formação de conexões durante a leitura de palavras também melhora o desempenho da escrita. Os resultados desses estudos mostram que:

Ler palavras e escrever palavras são como os dois lados de uma moeda. Os estudos mostram que a correlação entre as duas habilidades é muito alta, com coeficientes acima de ,70. Isto não deveria ser surpresa, porque ambas as habilidades são governadas por vários dos mesmos processos: conhecimento do sistema ortográfico alfabético e uso deste conhecimento para formar conexões entre a grafia e a pronúncia de palavras específicas para armazená-las na memória. Estas descobertas ressaltam a importância do ensino da leitura e da escrita para o fortalecimento de ambas as habilidades”. (Ehri, 2013, p. 67)

Sondagem de escrita por meio da reescrita de um conto

Para alunos que já escrevem convencionalmente, a sugestão é pedir que reescrevam um conto que eles já conhecem. A reescrita é uma situação muito potente, justamente porque o conteúdo temático, como os acontecimentos da história, é conhecido pelos estudantes. Assim, não é preciso pensar no que escrever, mas sim em como escrever.

Nesse sentido, antes de começar, é preciso se certificar de que os estudantes conhecem a história que será utilizada. Uma boa alternativa é escolher fábulas bastante conhecidas, como, por exemplo, “o leão e o ratinho”. Prefira textos curtos.

Passo a passo:

  1. Após ter o texto escolhido, prepare o ambiente, assim como foi descrito na sondagem a partir do ditado. Nesse caso, pode-se utilizar uma folha com linhas. 
  2. Em seguida, leia o texto todo, em voz alta, para o estudante. 
  3. Realize uma segunda leitura, mas dessa vez, leia até determinado ponto, ou seja, até o trecho que você vai deixar marcado anteriormente, por exemplo, deixe os dois últimos parágrafos da fábula “O leão e o ratinho”.
  4. Solicite que o estudante ou grupo de estudantes avaliado reescreva, individualmente, o trecho que você não leu na segunda leitura. No exemplo apresentado, o aluno vai reescrever o final da fábula.
  5. Assim como o ditado de listas, não realize intervenções ou correções nesse momento, pois isso pode interferir nos resultados. Também anote todas as observações que podem complementar o diagnóstico de escrita.

Sondagem de escrita a partir de um contexto significativo

Menina escrevendo para ilustrar sondagem de escrita por meio do ditado

O objetivo dessa proposta é analisar o desenvolvimento das habilidades de escrita dos estudantes a partir de atividades que já fazem parte da rotina em sala de aula. Tais atividades devem ter um objetivo maior, que é usar a escrita em situações reais.

A avaliação de escrita a partir de um contexto real pode ser utilizada no dia a dia, integrada a outras atividades. O interessante é que, quando a criança escreve com um objetivo claro, se motiva mais. E quanto mais motivada, poderá colocar em prática seus conhecimentos sobre o sistema de escrita.

Para essa sondagem, é possível continuar propondo a escrita de listas. Porém, o diferencial é que a produção de uma lista terá um objetivo real, que será socializado com outras pessoas. 

Por exemplo:

  • Escrita de uma lista de frutas preferidas pela turma para preparar uma salada de frutas. 
  • Escrita de uma lista de objetos que os alunos devem levar de casa para uma oficina de brinquedos recicláveis. 
  • Escrita de uma lista de animais que a turma quer pesquisar em enciclopédias para depois montar um cartaz.

Uma sugestão criativa é confeccionar bonequinhos que representam alguns personagens de uma história que a turma mais gostou. Assim que os personagens estiverem prontos, um grupo de alunos deve escrever o nome de determinado personagem, para depois realizarem uma exposição.

Dessa forma, os estudantes escrevem dentro de um contexto significativo, pois sabem o que estão escrevendo, por que, para que e para quem. Também conseguem entender o que está escrito, mesmo que esteja do “jeito deles”.

Nessa proposta, a intervenção docente é necessária. O objetivo não é induzir o aluno a escrever de acordo com determinada fase, mas realizar intervenções que possibilitem às crianças colocar em jogo aquilo que já sabem. Além de incentivá-las a buscar recursos para superar os obstáculos que surgem ao escrever.

Como potencializar a sondagem

  • Tendo planejada uma situação de produção escrita significativa, ajude as crianças a relembrar o conteúdo que estão escrevendo para que não “percam” o sentido da produção.
  • Incentive os estudantes a ter palavras de referência, como nome dos colegas e demais textos afixados na sala de aula. Assim, eles podem identificar sons presentes em uma palavra já escrita para auxiliar na escrita de outra palavra. Um exemplo para ficar mais fácil: “laranja começa com o ‘la’ de Larissa”.
  • Solicite que os estudantes leiam o que escreveram para que possam controlar suas produções, relacionando a leitura com a escrita. Problematize, sem dizer se está certo ou errado, e peça para revisarem a escrita. 
  • Não se esqueça de avaliar o conhecimento sobre letras e a consciência fonológica (incluindo consciência fonêmica).

Dessa maneira, é possível realizar duas situações indispensáveis: sondar as fases de escrita das crianças, percebendo evoluções e dificuldades, e ainda, intervir buscando avanços na aprendizagem.

Conclusão

A sondagem de escrita é um instrumento essencial, mas não é o único e, por isso, deve ser utilizada em conjunto com outras formas de avaliação. 

Além disso, para que tenha sucesso, não basta aplicar a sondagem e classificar cada aluno de acordo com a fase ou hipótese em que ele está.

Esse é apenas o primeiro passo, como uma base, para planejar intervenções pedagógicas que possibilitem que cada estudante avance em seu conhecimento sobre o sistema de escrita alfabético e se aproxime da escrita convencional.

Referências

ALBUQUERQUE, Ana. Linguagem escrita na educação infantil: práticas pedagógicas promotoras da aprendizagem em sala de aula.  In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book.

CARDOSO-MARTINS, Cláudia. Existe um estágio no desenvolvimento da escrita em português? Evidência de três estudos longitudinais. In: MALUF, M. R.; CARDOSO-MARTINS, C. (orgs.). Alfabetização no século XXI: Como se aprende a ler e a escrever. Porto Alegre, RS: Penso, 2013. p. 82-108. E-book. [[VitalSource Bookshelf version]].

EHRI, Linnea C. Aquisição da habilidade de leitura de palavras e sua influência na pronúncia e na aprendizagem do vocabulário. In: MALUF, M. R.; CARDOSO-MARTINS, C. (orgs.). Alfabetização no século XXI: Como se aprende a ler e a escrever. Porto Alegre, RS: Penso, 2013. p. 49-81. E-book.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. 26 ed. São Paulo: Cortez, 2011.

O’Leary, Robin, EHRI, Linnea C. Ensinar letras e consciência fonêmica como habilidades fundamentais ajuda as crianças de 4 e 5 anos a avançarem na leitura.  In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book.

SOUSA, Otília Costa e. O ditado como estratégia de aprendizagem. Educação e Formação. n. 9. Exedra: Revista Científica ESEC. Disponível em: https://repositorio.ipl.pt/entities/publication/1a4287b2-8f0a-4418-8de9-4689681147e9. Acesso em: 25 mar. 2026.

VALE, Ana Paula, SOUSA, Otília. A análise dos erros ortográficos como instrumento para compreender o desenvolvimento e apoiar o ensino da escrita. In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book.

3 comentários em “8 maneiras de fazer sondagem de escrita: qual delas é ideal para você?”

  1. A sondagem de escrita é eficaz como forma de avaliação. Além de servir como base para desenvolver o planejamento de intervenção pedagógica para melhor desenvolvimento do aluno.

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  2. A sondagem da escrita é um ótimo método para avaliar e dar resposta sobre como está andando o desenvolvimento do seu trabalho com a turma, e quem sabe buscar novas estratégias para que a turma possa avançar se for necessário.

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