Para avançar alunos nas fases de leitura e escrita, é necessário fazer mediações condizentes com as habilidades que o aluno ainda precisa desenvolver para progredir na aprendizagem. Acompanhe dicas e sugestões de atividades.
Após fazer a sondagem de escrita e analisar os resultados, chega a etapa mais decisiva: propor as atividades e intervenções apropriadas para cada estudante com base na fase de leitura e escrita em que ele se encontra.
Seguir a perspectiva fonológica é muito importante para alinhar-se às evidências científicas recentes. Porém, é uma abordagem pouco conhecida para muitos de nós e por isso, ficamos em dúvida sobre quais atividades e intervenções são recomendadas para cada uma das quatro fases propostas por Linnea Ehri.
Se você, assim como eu, adotou a Psicogênese da Escrita por muito tempo e se sente perdida sobre como colocar a Teoria de Ehri em prática, esse post pode te ajudar.
Reuni o que aprendi depois de muitas pesquisas e leituras de livros renomados, em um guia prático que irá te auxiliar a escolher as mediações adequadas para ajudar seus alunos a avançar de uma fase para outra até conseguirem ler e escrever com sucesso.
Para escrever este post, consultei os seguintes livros: “Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula”, organizado por Renan Sargiani, e “Alfabetização no século XXI: Como se aprende a ler e a escrever”, organizado por Cláudia Cardoso-Martins e Maria Regina Maluf.
Boa leitura!
Quais são as Fases de Ehri?
De acordo com a Teoria das Fases de Linnea Ehri, as crianças progridem por quatro fases de desenvolvimento que dependem do conhecimento sobre nosso sistema de escrita alfabético. Ou seja, é um processo pelo qual o aprendiz passa para entender que letras representam sons pronunciados nas palavras.
Parece um processo simples e óbvio para nós que já somos leitores. Mas definitivamente não é.
Quando uma pessoa está aprendendo a ler (pode ser criança, jovem ou adulto), ela pode acreditar que as letras são utilizadas para desenhar algo. É preciso uma mediação para ela detectar sons e perceber que, na verdade, utilizamos as letras para representar os sons da fala.
Além disso, esse desenvolvimento depende do tipo de conexão predominante para reter palavras na memória. Uma vez que é preciso que o aluno faça uma conexão ligando a grafia de uma palavra à pronúncia, para assim conseguir ler de forma automática.
De acordo com o modelo de Linnea Ehri, o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita acontece por meio de quatro fases: pré-alfabética, alfabética parcial, alfabética completa e alfabética consolidada.
Não significa que os aprendizes vão passar por estágios distintos de desenvolvimento. Conforme os estudos de Ehri, as fases se sobrepõem à medida que surgem.
Às vezes acontece de ficarmos em dúvida se a criança está em uma fase ou em outra próxima. A teoria explica que realmente as crianças podem usar mais de um tipo de conexão para reter palavras na memória. Nesse caso, temos que observar qual conexão está predominando para identificar qual é a fase.
Intervenções recomendadas para todas as fases de leitura e escrita
Antes de conferir sugestões de atividades para cada fase da Teoria de Ehri, vamos falar de algumas intervenções importantes para todo o processo de alfabetização, independentemente do nível.
- Torne a decoração da sala útil: utilize cartazes com o nome dos alunos da turma, com as rotinas, com dias da semana, com banco de palavras, palavras do dia etc. como facilitadores da alfabetização. Você pode propor momentos coletivos para explorar esses recursos. Além disso, incentive os estudantes a consultar esses materiais durante as atividades de leitura e escrita.
Por exemplo, para escrever a palavra “sapo”, as crianças podem consultar o cartaz com os dias da semana e perceber que “sapo” começa com o mesmo pedacinho de “sábado” e também começa com o mesmo sonzinho de “segunda”.
- Realize agrupamentos ou duplas produtivas com alunos que estão em fases próximas para que decidam em conjunto sobre como escrever uma palavra. Isso é fundamental para confrontarem seus conhecimentos sobre a escrita.
- Incentive os alunos a explicar por que escreveram de determinada maneira. Isso favorece a metacognição e te ajuda a compreender o que estão pensando sobre o princípio alfabético.
- Evite corrigir com certo ou errado imediatamente. Dê um tempo para que os alunos retomem a escrita depois que você fizer algumas mediações.
- Realize ditados regularmente, tanto para avaliar quanto para estimular a aprendizagem.
- Promova momentos de escrita coletiva.
- Escreva diferentes opções de grafia de uma palavra no quadro para as crianças identificarem qual é a correta, interagindo com os pares.
- Registre as observações e reflexões levantadas pelos estudantes durante as atividades na lousa para discutir com toda a turma.
- Reserve um tempo ao final da atividade para revisar o que aprenderam durante a aula.
- Valorize os pequenos avanços das crianças.
- Inclua momentos de leitura em voz alta pelo professor, conto e reconto de histórias.
Agora, vamos às sugestões de atividades para cada fase de desenvolvimento da leitura e escrita. Não se trata de uma “receita”, mas de algumas das possíveis intervenções que podem contribuir com o desenvolvimento do aluno, partindo do que ele já sabe.
Como avançar da fase pré-alfabética para alfabética parcial
Quando o estudante está na fase pré-alfabética, ele ainda não compreendeu como nosso sistema de escrita funciona. Ele observa os recursos visuais como cores e formas para “tentar” ler a palavra.
Sendo assim, o mais importante nesse momento é ajudar o aprendiz a compreender que letras representam sons.
Para avançar para a fase alfabética parcial as crianças precisam:
- aprender os nomes e formas das letras;
- começar a desenvolver a consciência fonêmica, como detectar sons no início e no final das palavras.
Quando estamos conhecendo as abordagens fonológicas pensamos que é importante ensinar apenas os sons das letras. Porém, as pesquisas indicam que saber o nome das letras também é importante para o desenvolvimento da leitura e da escrita até mesmo para facilitar o aprendizado dos sons.
Outra habilidade fundamental a ser desenvolvida é a consciência fonológica. Aqui não significa ensinar cada fonema da palavra (pois essa é uma habilidade mais complexa), mas iniciar o trabalho estimulando a criança a perceber os sons iniciais e finais.
Atividades sugeridas para alunos que estão na fase pré-alfabética
- Uso de mnemônicos de imagem embutida: essa estratégia consiste em desenhar um objeto cujo formato se assemelha à letra que está sendo ensinada, garantindo que o nome desse objeto comece com o som correspondente àquela letra. Por exemplo: a letra M desenhada no formato de montanhas.
- Músicas e cartazes do alfabeto.
- Letras construtoras: peças que ajudam crianças a montarem letras do alfabeto.
- Uso de sons ambientais e ritmos para treinar a atenção auditiva.
- Atividades que estimulem a criança a ouvir e manipular os sons da fala sem a necessidade imediata de letras.
- Pedir para as crianças pronunciarem palavras novas em voz alta.
- Jogos que envolvem a identificação de rimas e aliterações.
- Atividades lúdicas para identificar fonemas iniciais e finais em palavras.
- Identificar entre algumas figuras quais delas têm nomes que começam com o mesmo som.
- Identificação de sons nos nomes das letras, quando esses nomes são acrofônicos, isto é, os sons que representam coincidem com o nome da letra. Por exemplo, a letra A representa o som /a/, o nome da letra B (bê) começa com o som /b/.
- Treinos com gestos fonoarticulatórios: chamar a atenção da criança para a articulação da boca ao pronunciar partes de uma palavra, utilizando imagens de boquinhas ou espelho.
- Escrita espontânea.
- Progressivamente, introduzir a consciência de palavras e sílabas. Usar movimentos corporais, como bater palmas para cada sílaba ou dar passos para cada palavra em uma frase.
Como avançar da fase alfabética parcial para alfabética completa
Na fase alfabética parcial, a criança já domina o princípio básico do sistema alfabético. No entanto, as conexões estão incompletas, pois a consciência fonêmica ainda não foi totalmente desenvolvida.
As crianças que estão nessa fase geralmente utilizam pistas contextuais e letras iniciais e/ou finais para “adivinhar” a palavra.
Na escrita, não conseguem representar todos os sons e, por isso, omitem letras.
Nessa perspectiva, o desafio dos professores é levar o aluno a compreender que cada “sonzinho” conta para formar a palavra. O que mais facilita esse processo de desenvolvimento é a aquisição de uma estratégia de decodificação.
Pois conhecer qual (ou quais) sons cada letra representa e conseguir separar os pequenos sons que formam uma palavra falada é fundamental para que o aluno conecte os sons que ouvimos às letras que lemos ou escrevemos.
Isso ajuda a “colar” a palavra na memória junto com o seu significado, para poder reconhecê-la instantaneamente quando avançar nessa habilidade.
Atividades sugeridas para alunos que estão na fase alfabética parcial
- Uso de Caixas de Elkonin (ou caixas de sons): ajuda a criança a segmentar as palavras em seus fonemas individuais e a associar cada som ao seu respectivo grafema.
- Escolha criteriosa da ordem de ensino dos fonemas: começar o ensino com vogais e fonemas fricativos/prolongáveis, ou seja, aqueles que podemos prolongar a fala e, por isso, são mais fáceis de segmentar e aglutinar.
Exemplo de consoantes para começar o ensino da consciência fonêmica: f, v, j, s, x, z.
- Chamar a atenção da criança para as vogais e consoantes no meio das palavras.
- Atividades lúdicas para combinar uma sequência de sons separados e formar uma palavra.
- Brincadeiras de excluir ou acrescentar o som de uma palavra para formar outra palavra.
- Brincadeiras para identificar palavra dentro da palavra.
- Bater palmas ou usar objetos para identificar as sílabas.
- Escrita espontânea.
Como avançar da fase alfabética completa para alfabética consolidada
Na fase alfabética completa, os aprendizes já aprenderam as principais relações-fonema. Assim, conseguem decodificar praticamente qualquer palavra regular e escrevem palavras de forma mais completa.
No entanto, ainda têm uma leitura lenta (o que dificulta a compreensão) e cometem muitos erros de ortografia.
A mediação docente nesta etapa deve focar na automaticidade e no reconhecimento de padrões recorrentes na língua portuguesa. O objetivo é fixar na memória palavras ou parte de palavras para que os estudantes consigam ler ou escrever como unidades.
Atividades sugeridas para alunos que estão na fase alfabética completa
- Atividades com sílabas complexas, como os padrões CVC, CCV, VC, VV, CVV.
- O uso de “famílias de palavras” ou analogias ortográficas, por exemplo, “mar, marinheiro, maré, marinho”, são palavras em que o radical “mar” permanece.
- Leitura cronometrada de listas de palavras frequentes.
- Identificar a “sílaba mais forte” em palavras.
- Transformar palavras usando sufixos. Por exemplo, flor > floricultura.
- Leitura repetida de listas de palavras com padrões comuns. Por exemplo, nh, lh, ch.
- Frases embaralhadas.
- Produção de frases e pequenos textos.
- Jogos de ortografia.
- Importante: os estudos mostram que ver a grafia das palavras é muito importante para que as crianças lembrem da pronúncia e do significado de palavras novas.
Atividades sugeridas para alunos que estão na fase alfabética consolidada
- Atividades que desafiam os alunos a identificar padrões que se repetem em várias palavras.
- Trabalhar com sílabas complexas, dígrafos, encontros consonantais e famílias de palavras.
- Uso do dicionário.
- Leitura diária para praticar a fluência.
- Leitura dramatizada.
- Leitura e escrita de textos de diversos gêneros.
Conclusão
Compreender como avançar alunos nas fases de leitura e escrita é essencial para transformar a prática pedagógica, pois as intervenções precisam ser condizentes com o que a criança precisa desenvolver. Só assim terá resultados.
O processo de aprender a ler e a escrever é complexo e difere de pessoa para pessoa. Sendo assim, a avaliação deve ser uma parceira dos professores identificarem o que deu certo ou não para determinado aluno e o que ele precisa para progredir na aprendizagem.
Referências
ALBUQUERQUE, Ana. Linguagem escrita na educação infantil: práticas pedagógicas promotoras da aprendizagem em sala de aula. In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book. p.77-92. ISBN 9786559760091. [VitalSource Bookshelf version]
EHRI, Linnea C. Aquisição da habilidade de leitura de palavras e sua influência na pronúncia e na aprendizagem do vocabulário. In: MALUF, M. R.; CARDOSO-MARTINS, C. (orgs.). Alfabetização no século XXI: Como se aprende a ler e a escrever. Porto Alegre, RS: Penso, 2013. p. 49-81. E-book. [VitalSource Bookshelf version]
MARIOTTO, Alberto; ARFE, Barbara. Recomendação para o ensino de escrita e leitura para iniciantes. In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book. p.153-168. ISBN 9786559760091. [VitalSource Bookshelf version]
O’LEARY, Robin, EHRI, Linnea C. Ensinar letras e consciência fonêmica como habilidades fundamentais ajuda as crianças de 4 e 5 anos a avançarem na leitura. In: SARGIANI, Renan (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022. E-book. p.61-76 ISBN 9786559760091. [VitalSource Bookshelf version]
